Faísca chega às livrarias como o mais novo trabalho de Ilustralu, a quadrinista potiguar que conquistou o público com Arlindo e agora traz Didi, uma menina apaixonada por Festa Junina que não aceita limites impostos por gênero. Publicada pela Companhia das Letrinhas no selo Companhia das Letrinhas, a HQ de 104 páginas é indicada para leitores a partir de 9 anos, mas tem camadas que agradam qualquer idade que já tenha sentido o cheiro de fogueira e o estouro de fogos numa noite de São João.

Didi é uma menina do interior potiguar que ama Festa de São João, mas não pela parte dos vestidos cheios de babados e fitas coloridas. O que ela gosta mesmo é de observar a fogueira, comer milho, macaxeira e canjica, e ver os meninos soltando fogos. Quando ela pede para brincar com eles, ninguém leva a sério e dizem que não é brincadeira de menina. Oxe! Didi não vai aceitar essa história e está disposta a provar que não existe coisa que uma menina não possa fazer.

Ao lado de sua nova amiga Ninha, Didi parte em uma aventura para curtir ao máximo sua noite de São João enquanto dança, foge das meninas que a chamam de esquisita, ouve as histórias de seu padrim e, claro, tenta realizar seu sonho explosivo. A narrativa se passa durante uma única noite de festa, com cadeira na calçada, quadrilha improvisada e todo o clima tipicamente seridoense que Ilustralu conhece tão bem.

A edição da Companhia das Letrinhas cumpre bem seu papel ao entregar uma graphic novel ágil, com ritmo que prende do começo ao fim sem perder o fôlego. As 104 páginas são suficientes para desenvolver a história sem atropelos, mantendo o equilíbrio entre diálogo, ação e momentos de respiro que permitem ao leitor absorver o clima da festa. O livro funciona tanto como leitura independente quanto como porta de entrada para quem ainda não conhece o trabalho de Ilustralu, mesmo sendo uma continuação espiritual do universo afetivo que ela construiu em Arlindo.
Ilustralu volta ao seu território favorito em Faísca, as vivências da juventude interiorana nordestina, com um traço que carrega humor, carisma e um sotaque bem brasileiro. A autora afirma que procurou criar uma história de São João com todo o encantamento e todo o realismo mágico que existe em volta da fogueira, das comidas e da festa quando ainda se é criança. O resultado visual é uma HQ que transborda calor, com cores quentes que remetem ao fogo da fogueira e ao pôr do sol no sertão, além de expressões faciais que capturam perfeitamente a personalidade carismática de Didi.

O traço de Ilustralu tem uma leveza que combina com o tema infantil sem ser simplório, mantendo detalhes que enriquecem cada página e criam uma atmosfera imersiva. A arte consegue transmitir tanto a magia da festa quanto a seriedade dos momentos em que Didi enfrenta o preconceito, equilibrando tom lúdico e mensagem social sem cair no didatismo.

Com Didi, Ilustralu conversa diretamente com leitores mais novos, sem deixar de encantar quem já acompanha seu trabalho. Enquanto Arlindo falava sobre adolescência, Faísca faz um contato com a infância que mora dentro de todo mundo, seja a pessoa criança ou não. O roteiro trabalha com uma premissa simples mas poderosa: uma garotinha que quer fazer algo que a sociedade ditou como masculino e que, por isso, não poderia fazer.

A narrativa não cai no erro de transformar Didi em um símbolo vazio, mas a constrói como uma garotinha feliz que quer brincar e ter amigas, mesmo que os outros a vejam de forma torta. O que fica claro ao longo da história é que Didi é amada, e é isso que importa, com um ato de sua mãe no desfecho que faz toda a história simplesmente insuperável. O livro funciona como um convite para entrar na festa, descobrir que podemos ser como queremos ser e que basta uma faísca para iluminar os mistérios mais inesperados.

Faísca se torna assim uma graphic novel que toca tanto crianças quanto adultos, dando aquele quentinho no coração e mostrando que a família é quem nos ama e sempre vai estar conosco, de todas as formas possíveis. Não é apenas uma faísca de amor, é uma fogueira inteira que merece ser lida mesmo que não seja noite de São João.
