A fantasia sombria ganhou um dos grandes destaques da Bienal do Livro de São Paulo 2026. SenLinYu esteve no evento para falar sobre Alchemised, seu livro de estreia publicado no Brasil pela Editora Intrínseca, e conversou com o Portal do Nerd sobre memória, guerra, trauma e as histórias que os vencedores escolhem contar.
A obra acompanha Helena Marino, uma alquimista e curandeira que sobreviveu à queda da Resistência, mas perdeu boa parte das próprias memórias. Agora prisioneira dos novos governantes, ela é enviada para o domínio de um dos mais perigosos necromantes daquele mundo.
O problema é que os registros dizem que Helena era uma figura secundária. Para seus carcereiros, entretanto, o apagamento de sua memória pode esconder um segredo capaz de mudar o destino do conflito.

No Brasil, Alchemised chegou em duas edições especiais: uma capa dura com pintura trilateral e outra em brochura. O livro é volumoso, mas sua proposta é ainda maior: usar uma fantasia repleta de alquimia e necromancia para falar sobre marcas que não desaparecem quando uma guerra acaba.
Das sonecas à Bienal do Livro
A carreira de SenLinYu começou de maneira inesperada. A pessoa autora escrevia no aplicativo de notas do celular durante a soneca de seu bebê, buscando apenas uma atividade criativa para preencher alguns momentos do dia.
A partir daí, suas histórias on-line encontraram leitores em vários países e formaram uma comunidade enorme. O sucesso trouxe carinho, identificação e também opiniões sobre o rumo que cada história deveria seguir. SenLinYu conta que essa experiência foi essencial para desenvolver confiança como autore. “Eu queria uma forma de expressão criativa, não estava tentando agradar”, explicou durante a entrevista.

Com o tempo, tornou-se necessário entender que uma história pode ser profundamente importante para algumas pessoas e, ainda assim, não agradar a todas. Essa percepção ajudou SenLinYu a criar Alchemised com uma identidade própria, sem transformar as expectativas do público em uma espécie de manual obrigatório.
A memória como campo de batalha
Helena começa a história sem acesso completo ao próprio passado. Ela precisa lidar com a dúvida sobre quem foi, enquanto outras pessoas tentam apresentar uma versão pronta de sua identidade. A memória, segundo SenLinYu, não é apenas um recurso para criar mistério. Ela é uma forma de investigar como as pessoas constroem a própria imagem e como a sociedade tenta impor definições sobre elas.

“A memória é um tema muito importante na história, não apenas para Helena como indivíduo, mas também por meio da ideia mais ampla de memória histórica”, afirmou. A autora também se interessou pela possibilidade de trabalhar com a percepção como algo instável. Helena interpreta a si mesma de uma maneira, as pessoas ao seu redor podem enxergá-la de outra, e os registros oficiais apresentam uma terceira versão.
Nenhuma dessas versões precisa ser totalmente confiável. É nesse espaço de incerteza que a protagonista tenta reconstruir sua identidade.
Depois do fim ainda existe guerra
Um dos pontos mais fortes da conversa foi a maneira como Alchemised aborda o trauma. Para SenLinYu, não faria sentido terminar uma história de guerra com personagens completamente recuperadas, como se experiências extremas pudessem desaparecer assim que o conflito deixasse de movimentar a trama.

“Eu queria escrever uma história em que o trauma da guerra permanecesse continuamente presente”, disse. A guerra modifica as personagens em níveis profundos. Ela influencia as relações, as escolhas e a maneira como cada pessoa compreende o próprio corpo e o próprio passado.
SenLinYu também explicou que estudou a história de diferentes guerras para compreender padrões de comportamento e decisões recorrentes. A obra não busca reproduzir um conflito específico, mas aproveita elementos que se repetem em contextos de violência: a transformação das pessoas, a disputa por recursos e a necessidade de escolher entre alternativas ruins. Por isso, o trauma não funciona como um obstáculo temporário. Ele se torna parte da vida das personagens, mesmo quando elas tentam seguir em frente.
Heróis, vilões e versões convenientes
A história também questiona a facilidade com que guerras são divididas entre heróis absolutos e vilões definitivos. Nas palavras de SenLinYu, a sociedade costuma criar arquétipos heroicos tanto nos registros históricos quanto em filmes, livros e outras narrativas. Essas imagens podem reforçar versões simplificadas do passado e esconder as ambiguidades de quem participou dos acontecimentos.

“Eu queria questionar essa simplificação, esses arquétipos fáceis e o achatamento da moralidade”, afirmou. Em vez de tratar a guerra como uma aventura grandiosa, Alchemised tenta mostrar por que ninguém deveria desejar viver naquele mundo. O leitor pode torcer por Helena e se envolver com a história, mas sem confundir o espetáculo da fantasia com a experiência da violência.
O desconforto depois da última página
SenLinYu relaciona a estrutura do livro à ideia de catarse, conceito associado à tradição grega e à experiência de liberar emoções por meio de uma obra de ficção.
Normalmente, o público chega ao final, encontra uma resolução e retorna à vida real com a sensação de que os conflitos foram encerrados. Alchemised brinca com essa expectativa: aproxima-se da catarse, mas recua no momento decisivo.

O resultado é uma sensação de desconforto que pode acompanhar o leitor depois do fim. Para a autora, esse incômodo é importante porque impede que a história seja facilmente arquivada como uma aventura distante.
A intenção é que o público saia do livro e reconheça os paralelos com o mundo real: a propaganda, o apagamento histórico, a construção de heróis e a disputa pelo controle da verdade.
A participação de SenLinYu na Bienal do Livro de São Paulo 2026 reforçou como a literatura fantástica pode dialogar com temas urgentes sem deixar de entregar uma narrativa envolvente. Em Alchemised, Helena busca recuperar o passado, mas sua jornada também questiona quem tem o direito de escrever a história, e o que acontece com aqueles que são apagados dela.
Alchemised está publicado no Brasil pela Editora Intrínseca, em edição de capa dura com pintura trilateral e em versão brochura.
