Em uma indústria cada vez mais abarrotada de remakes, sequências e fórmulas manjadas, Denshattack! chega para “reinventar a roda”. A premissa parece uma piada: controlar um trem capaz de fazer kickflips, deslizar em trilhos insanos, correr por paredes e desafiar a gravidade em um Japão futurista devastado pelas mudanças climáticas. O mais impressionante é que essa ideia completamente absurda funciona!
Desenvolvido pela Undercoders, o jogo mistura referências claras a Tony Hawk’s Pro Skater, Jet Set Radio, Sonic e aos arcades da era Dreamcast, mas com uma identidade própria. É uma experiência caótica, estilosa e incrivelmente divertida, que faz da criatividade sua maior qualidade.
Um trem que desafia as leis da física
A campanha acompanha Emi, uma jovem maquinista que tenta enfrentar uma poderosa corporação em um Japão reconstruído sobre uma gigantesca malha ferroviária. A narrativa existe principalmente para justificar as situações cada vez mais absurdas que surgem durante a aventura – e isso não é um problema.

O foco está totalmente na jogabilidade. Cada fase coloca o jogador sobre trilhos repletos de rampas, curvas, obstáculos e oportunidades para realizar manobras. O trem pode saltar, girar, deslizar por corrimões, andar pelas paredes e até dirigir de cabeça para baixo enquanto acumula pontos em enormes combos.
A sensação é parecida com a de um jogo de skate, só que substituindo a prancha por uma locomotiva supersônica. Pode parecer ridículo no papel, mas basta alguns minutos para perceber como tudo faz sentido dentro da lógica maluca criada pelo jogo.
Um dos maiores méritos de Denshattack! é evitar que a fórmula fique repetitiva. Novas habilidades aparecem constantemente ao longo da campanha; conforme avança, aprendemos a utilizar correntes de vento, inverter a gravidade, percorrer trilhos de energia, explorar novos tipos de obstáculos e enfrentar chefes extremamente criativos.
Essa variedade mantém o ritmo elevado praticamente o tempo inteiro. As fases são relativamente curtas, mas conseguem apresentar novas ideias antes que as anteriores se desgastem.

Além disso, cada estágio possui diversos objetivos opcionais envolvendo tempo, pontuação e desafios específicos, nos incentivando a voltar para melhorar seu desempenho. É uma estrutura que recompensa quem gosta de dominar completamente cada fase.
Tributo aos arcades dos anos 2000
Visualmente, Denshattack! chama atenção imediatamente. A direção de arte abraça sem medo a estética da era Dreamcast, com cores extremamente vibrantes, personagens exagerados e cenários que misturam cidades futuristas, montanhas, templos e paisagens japonesas completamente surreais.
A trilha sonora acompanha perfeitamente essa proposta, trazendo músicas eletrônicas aceleradas que combinam com a velocidade da jogabilidade e ajudam a manter a adrenalina sempre alta. Todo o conjunto audiovisual reforça a personalidade do jogo e faz dele uma experiência difícil de confundir com qualquer outro título recente.
Embora seja acessível nas primeiras fases, Denshattack! não demora para exigir precisão. A velocidade aumenta bastante conforme novas mecânicas são introduzidas, obrigando o jogador a memorizar comandos, reagir rapidamente a obstáculos e planejar seus movimentos para manter os combos ativos.

Em alguns momentos, tanta informação acontecendo ao mesmo tempo pode sobrecarregar. O jogo utiliza diversos indicadores visuais para avisar curvas, saltos e perigos, mas nem sempre é fácil acompanhar tudo durante as sequências mais intensas.
Felizmente, o sistema de checkpoints é bastante generoso, permitindo repetir trechos difíceis quase instantaneamente sem causar grande frustração. Além disso, quem busca apenas concluir a campanha pode ignorar boa parte dos objetivos opcionais e seguir adiante normalmente.
A estrutura baseada em fases e objetivos acaba tornando parte da campanha um pouco rígida. Embora exista liberdade para executar manobras, muitos desafios acabam incentivando percursos bastante específicos para alcançar as melhores pontuações, limitando um pouco a experimentação.
A câmera também pode dificultar a leitura da ação em alguns trechos, especialmente quando diversos efeitos visuais ocupam a tela ao mesmo tempo. Em certas fases, acompanhar o cenário enquanto executa manobras exige um esforço maior do que deveria.

Vale a pena?
A proposta de Denshattack! parece absurda, mas a execução demonstra uma confiança admirável. O excelente sistema de manobras, a enorme variedade de mecânicas, a direção de arte inspirada no Dreamcast e a trilha sonora energética transformam uma ideia completamente improvável em uma das experiências mais criativas dos últimos anos.
Nem tudo é perfeito, mas Denshattack! prova que ainda existe espaço para ideias malucas no mercado. Quando elas são executadas com tanta personalidade, fica difícil não sair da aventura com um sorriso no rosto — e se perguntando por que ninguém pensou antes em fazer um jogo sobre trens capazes de dar kickflips.
