A Editora JBC traz ao Brasil mais um título que amplia o alcance do gênero BL entre os leitores nacionais. “Ciúme Cor de Raposa”, mangá de Machi Suehiro, chega em volume único apostando em uma mistura envolvente de romance, vida cotidiana e elementos sobrenaturais, entregando uma narrativa leve, curiosa e bastante cativante para quem busca uma leitura mais intimista.

Na história, acompanhamos o jovem universitário Akiha, que carrega consigo uma peculiar e problemática herança familiar. Há gerações, sua família foi amaldiçoada por um espírito de raposa, e desde então alguns membros passam a conviver com essa presença sobrenatural que pode assumir o controle de seus corpos. No caso de Akiha, isso se manifesta de forma ainda mais evidente, com o surgimento de orelhas e rabo de raposa sempre que ele abaixa a guarda, além de episódios em que perde completamente o controle de si.
Buscando uma forma de lidar com essa condição, Akiha se muda para Tóquio, onde pretende iniciar seus estudos universitários e, ao mesmo tempo, encontrar uma solução para sua maldição. Ele passa a viver com parentes distantes que administram um templo, acreditando que esse ambiente pode ajudá-lo a controlar o problema. No entanto, logo em seu primeiro contato com Yukuri, filho dos responsáveis pelo local, algo inesperado acontece: tomado pelo espírito de raposa, Akiha o agarra inconscientemente e a situação escala ainda mais quando a entidade acaba beijando o rapaz.

Esse ponto de partida já deixa claro o tom da obra, que mistura situações constrangedoras, humor e tensão emocional com um pano de fundo sobrenatural. Não é raro que mangás japoneses explorem o imaginário folclórico, seja em histórias de fantasia mais grandiosas ou em narrativas cotidianas. “Ciúme Cor de Raposa” se encaixa nesse segundo grupo, apresentando um mundo muito semelhante ao nosso, onde essas entidades existem, mas permanecem desconhecidas pela maioria das pessoas.
Ao longo da trama, vemos como a vida de Akiha sempre foi limitada pelo medo de ser descoberto, o que moldou sua personalidade mais retraída e defensiva. Já Yukuri surge como um contraponto interessante, sendo gentil, aberto e alguém que naturalmente se aproxima dos outros — ainda que isso também lhe traga complicações. A dinâmica entre os dois se constrói de forma gradual, com momentos de tensão, aproximação e descobertas que fazem os sentimentos florescerem de maneira orgânica.

Machi Suehiro trabalha bem esse equilíbrio entre romance e conflito. A presença constante do espírito de raposa funciona tanto como elemento cômico quanto como obstáculo real, interferindo diretamente na relação dos protagonistas. Pequenos dramas surgem ao longo da narrativa, ora evidenciando as dificuldades de Akiha em lidar com sua condição, ora criando situações que colocam à prova a conexão entre ele e Yukuri.
Mesmo com algumas cenas mais maduras, a obra mantém um tom leve e acessível, sem pesar na dramaticidade. Pelo contrário, há um cuidado em construir uma atmosfera confortável, quase acolhedora, que faz com que a leitura flua de maneira muito agradável. É o tipo de mangá que aposta na simplicidade bem executada, focando no desenvolvimento dos personagens e nas emoções que surgem entre eles.

Outro ponto que chama atenção é como a autora consegue, em um único volume, apresentar personagens bem definidos e uma história que se desenvolve de forma completa. Desde as primeiras páginas, a narrativa já engaja com uma sequência de acontecimentos curiosos e até caóticos, estabelecendo rapidamente o tom da obra e os caminhos que ela pretende seguir.
No fim das contas, trata-se de um mangá que aposta no charme de uma boa história de romance com toques sobrenaturais, sem complicações desnecessárias. Funciona muito bem como uma leitura de conforto, daquelas que equilibram humor, ternura e um pouco de drama na medida certa. Para quem já acompanha obras BL ou simplesmente gosta de histórias românticas com um diferencial, é um título que merece atenção no catálogo recente da editora.
