Existem momentos na história dos videogames que acabam se tornando maiores do que os próprios jogos. Para Gears of War, um desses momentos é o Dia da Emergência, o fatídico dia em que a humanidade de Sera descobriu que não estava sozinha — e que, abaixo de seus próprios pés, existia uma ameaça capaz de mudar completamente o destino do planeta.
É justamente esse acontecimento que Gears of War: E-Day coloca no centro de sua história.
Desenvolvido pela The Coalition, E-Day não é um spin-off ou uma história paralela. Trata-se de uma nova entrada principal na franquia, mas ambientada 14 anos antes dos acontecimentos do primeiro Gears of War. O jogo retorna ao passado para mostrar como tudo começou: a primeira aparição da Horda Locust, o início da guerra que definiria Sera pelas décadas seguintes e, principalmente, a origem da relação entre dois dos personagens mais importantes da série: Marcus Fenix e Dominic Santiago.

Antes da Horda Locust
Para entender a importância de E-Day, é preciso voltar ainda mais no tempo. Antes da guerra contra os Locust, Sera havia passado por quase oito décadas de conflito entre as grandes potências humanas. As chamadas Guerras do Pêndulo colocaram a Coalizão de Governos Ordenados (CGO/COG) e a União das Repúblicas Independentes em lados opostos de um conflito que consumiu gerações.
Marcus Fenix e Dominic Santiago cresceram nesse cenário e se tornaram soldados experientes durante as Guerras do Pêndulo. Quando E-Day começa, porém, essa guerra finalmente chegou ao fim e Sera está experimentando seus primeiros momentos de paz em décadas.
Para Marcus e Dom, isso representa algo que eles praticamente nunca tiveram: a possibilidade de imaginar uma vida fora do campo de batalha. Mas essa nova fase também começa marcada pela perda de Carlos Santiago, irmão mais velho de Dom e melhor amigo de Marcus, que morreu durante a guerra. A morte de Carlos é um elemento importante para compreender a relação entre os dois protagonistas neste momento da cronologia. Diferentemente dos personagens que conhecemos na trilogia original, Marcus e Dom ainda não possuem o vínculo de irmandade construído ao longo dos anos de guerra contra os Locust. Em E-Day, veremos justamente esse relacionamento começar a tomar forma.

O Dia da Emergência
É nesse contexto de aparente paz que acontece o evento que dá nome ao jogo. Sem aviso, criaturas desconhecidas começam a surgir das profundezas de Sera. A Horda Locust emerge do subterrâneo e inicia um ataque em larga escala contra a humanidade.
O mais importante aqui é entender que, naquele momento, ninguém sabe exatamente o que está acontecendo. Para os soldados e civis de Sera, os Locust não são simplesmente um inimigo conhecido. Eles são uma ameaça completamente nova, formada por criaturas que surgem debaixo da terra e atacam uma humanidade que sequer teve tempo de compreender contra o que está lutando.
Essa perspectiva é uma das principais diferenças narrativas de E-Day. Nos jogos anteriores, nós já conhecemos os Locust, suas criaturas, armas e estratégias. Aqui, entretanto, Marcus, Dom e os demais integrantes do Esquadrão Bravo estão descobrindo tudo ao mesmo tempo que o jogador. A própria The Coalition explicou que a intenção era apresentar os Locust novamente como uma verdadeira ameaça de horror, vistos pelos olhos de pessoas que estão encontrando essas criaturas pela primeira vez.
O primeiro grande cenário apresentado pela campanha é Kalona, uma cidade que sofre diretamente com o início da invasão. É ali que Marcus, Dom e os demais integrantes do Esquadrão Bravo precisam sobreviver enquanto tentam entender o que está acontecendo e encontrar uma maneira de enfrentar uma força que parece surgir de todos os lugares.
A campanha acompanha o grupo durante os primeiros momentos dessa catástrofe, sem abandonar sua perspectiva. A The Coalition revelou que a história permanece com o Esquadrão Bravo durante todo o jogo: mesmo que o Dia da Emergência esteja acontecendo em diferentes partes de Sera, o jogador só conhece aquilo que Marcus, Dom e seus companheiros conseguem enxergar e descobrir.

Uma história sobre o nascimento de uma guerra — e de uma irmandade
Apesar de o Dia da Emergência ser o grande acontecimento histórico de E-Day, a proposta da campanha não é apenas mostrar a origem da Guerra Locust. A The Coalition descreve o jogo como uma história de duas origens. A primeira é a origem da própria guerra: o momento em que a Horda Locust aparece e transforma completamente o mundo de Sera. A segunda é muito mais pessoal: a origem da relação entre Marcus Fenix e Dominic Santiago.
Quem jogou a trilogia original sabe onde essa amizade vai chegar. Sabemos que Marcus e Dom se tornarão praticamente irmãos e que a relação entre os dois será um dos pilares emocionais da franquia. E-Day, entretanto, nos coloca em um momento em que essa ligação ainda está sendo construída. E talvez seja justamente esse o ponto mais interessante de retornar ao passado.
Nós sabemos o futuro desses personagens. Sabemos o que acontecerá com Sera. Sabemos o tamanho que a Guerra Locust terá. Sabemos quem Marcus e Dom se tornarão. Mas agora temos a oportunidade de testemunhar o momento em que tudo começou.

O retorno às raízes
Além da história, E-Day também representa uma tentativa deliberada de recuperar a identidade do Gears of War original. A The Coalition reconstruiu o jogo do zero na Unreal Engine 5, apostando em uma apresentação visual mais detalhada, combate baseado em cobertura modernizado, movimentação renovada e uma abordagem mais sombria para os Locust. Armas e elementos clássicos retornam, enquanto novas mecânicas e inimigos foram introduzidos para dar ao combate uma sensação mais atual.
E existe ainda um detalhe importante: estamos diante de uma história que acontece antes de muitos dos elementos que se tornaram símbolos da franquia. Até mesmo a famosa Lancer com motosserra ainda não existia naquele período da história. A própria The Coalition já explicou que E-Day também pretende contar algumas dessas “origens”, mostrando como determinados elementos que hoje são imediatamente associados a Gears of War chegaram a fazer parte daquele universo. É, portanto, uma espécie de retorno ao ponto zero da franquia.
Um retorno ao momento em que os humanos ainda não sabiam quem eram os Locust, Marcus e Dom ainda estavam construindo sua relação, a paz de Sera acabava de começar e ninguém poderia imaginar que aquele dia seria o primeiro capítulo de uma guerra que duraria anos.
E é justamente partindo desse contexto que começa a nossa análise de Gears of War: E-Day. Depois de ter experimentado uma prévia da campanha, agora tive a oportunidade de jogar a versão completa do jogo em acesso antecipado, podendo acompanhar toda a experiência e formar uma opinião sobre aquilo que a The Coalition construiu para este retorno às origens da franquia.
A partir daqui, deixamos o contexto histórico de lado e vamos falar sobre o que realmente importa: Gears of War: E-Day ficou bom?

Uma volta ao passado que mostra por que essa franquia continua tão relevante
Tive a oportunidade de jogar Gears of War: E-Day em sua versão completa, através de acesso antecipado, e depois de acompanhar toda a campanha, fica difícil não reconhecer o cuidado colocado pela The Coalition em cada parte dessa experiência.
O jogo não tenta reinventar completamente a fórmula de Gears of War. Em vez disso, ele pega aquilo que sempre funcionou na franquia e trabalha para entregar uma experiência mais refinada, moderna e tecnicamente impressionante. E, para mim, esse é um dos maiores acertos de E-Day.

Sera sendo destruída diante dos nossos olhos
Um dos aspectos que mais me impressionou durante a campanha foi a maneira como o jogo trabalha sua ambientação e a evolução da guerra. No início, ainda temos uma Sera que transmite uma sensação muito diferente daquela que conhecemos nos jogos anteriores. Conforme avançamos pela campanha e o conflito contra os Locust se intensifica, essa mudança fica cada vez mais evidente. Cidades vão sendo destruídas, estruturas começam a desabar e os cenários passam a carregar visualmente as consequências da invasão.
É uma evolução que não acontece apenas através da história contada pelos personagens. O próprio mundo ao nosso redor conta o que está acontecendo. E isso é acompanhado por um trabalho sonoro igualmente impressionante. Explosões, tiros, gritos, criaturas, desabamentos e toda a movimentação dos combates ajudam a criar uma sensação constante de que estamos realmente no meio de uma guerra que está começando naquele exato momento.
É um dos casos em que visual e áudio trabalham juntos para contar a história, sem depender exclusivamente de diálogos ou cutscenes. A sensação de acompanhar uma cidade se transformando conforme a guerra avança é um dos pontos altos da experiência.

Um dos jogos mais bonitos da geração
Visualmente, Gears of War: E-Day é impressionante. A The Coalition utiliza a Unreal Engine 5 para construir cenários extremamente detalhados, com uma quantidade enorme de elementos na tela e um nível de qualidade que coloca o jogo facilmente entre os títulos mais bem detalhados desta geração.
Os personagens apresentam modelagens muito detalhadas, enquanto os ambientes conseguem transmitir uma escala que combina perfeitamente com a proposta da campanha. Mas o mais interessante é que o visual não está ali apenas para impressionar. Os detalhes ajudam na construção do mundo e na própria sensação de destruição causada pela guerra. Conforme avançamos, é possível perceber as mudanças nos ambientes e o impacto que os acontecimentos têm sobre Sera.
A iluminação também merece destaque, principalmente durante os momentos em que o jogo alterna entre áreas mais abertas, ambientes internos e locais completamente tomados pelo caos da invasão. É uma experiência que, principalmente em momentos mais cinematográficos, mostra todo o potencial técnico da Unreal Engine 5.

A melhor jogabilidade da série?
Se existe um elemento em que E-Day realmente me surpreendeu, foi na jogabilidade. A essência de Gears of War continua intacta: correr, atirar, buscar cobertura, trocar de posição e tentar encontrar a melhor maneira de enfrentar os inimigos. Porém, tudo está mais refinado.
A movimentação está mais fluida, entrar e sair das coberturas é mais natural e a troca de posição durante os combates transmite uma sensação muito maior de controle. Isso pode parecer algo pequeno quando descrito individualmente, mas durante uma campanha inteira faz uma diferença enorme. Vale ressaltar também, que Gears mantém outra de suas características: o multiplayer em tela dividida, algo tão raro nos dias de hoje, mas conta também com a possibilidade de ser jogado em coop online, o que eleva ainda mais o nível de diversão desse jogaço.
A sensação é de que a The Coalition pegou a fórmula estabelecida pelos jogos anteriores e passou anos refinando cada uma de suas partes. Os combates continuam sendo intensos e brutais, mas agora existe uma fluidez maior entre movimentação, cobertura e ataque. Para mim, essa é a melhor versão da jogabilidade de Gears of War já apresentada pela franquia.
Não porque ela abandone aquilo que tornou a série conhecida, mas justamente porque entende muito bem o que precisa ser preservado e o que poderia ser aprimorado.

Uma história previsível, mas com uma dupla que funciona
No campo narrativo, E-Day segue um caminho mais seguro. A campanha apresenta uma história dentro do padrão esperado para a franquia e, apesar de possuir bons momentos, não é um jogo que depende de grandes reviravoltas para prender a atenção. Isso não significa que a narrativa seja ruim. Muito pelo contrário. O principal responsável por manter a campanha interessante é justamente o relacionamento entre Marcus Fenix e Dominic Santiago.
Sabemos que os dois terão uma longa história pela frente, e acompanhar o início dessa parceria dá um peso diferente para os acontecimentos. A campanha aproveita bem essa relação e faz com que os momentos entre Marcus e Dom sejam tão importantes quanto os próprios combates.
É interessante observar dois personagens que ainda não possuem a relação que os jogadores conheceram nos primeiros jogos e acompanhar a maneira como essa parceria começa a se construir em meio ao caos.
Talvez E-Day não tenha uma história repleta de surpresas, mas ele consegue entregar aquilo que considero mais importante para uma experiência de Gears: personagens que conseguimos acompanhar e uma campanha que nos faça querer descobrir o que acontece no próximo capítulo.

Missões secundárias e colecionáveis
Além da campanha principal, E-Day também conta com missões secundárias e colecionáveis espalhados pelos cenários. Esses conteúdos não mudam completamente a experiência, mas ajudam a ampliar alguns detalhes do universo de Gears of War.
As missões secundárias seguem uma proposta relativamente simples e não fogem muito do padrão esperado, mas funcionam como uma maneira interessante de explorar um pouco mais o mundo e descobrir informações que poderiam passar despercebidas caso o jogador seguisse apenas pelo caminho principal. Os colecionáveis também cumprem esse papel.
E existe um ponto positivo importante: a maioria deles é relativamente tranquila de encontrar. Isso faz com que explorar os ambientes não se transforme em uma caça frustrante por itens escondidos, ao mesmo tempo em que recompensa o jogador que decide sair um pouco do caminho principal.
Uma experiência tecnicamente muito sólida
Tecnicamente, minha experiência com Gears of War: E-Day foi excelente. Durante toda a campanha, encontrei pouquíssimos problemas que realmente chamassem atenção.
O principal ponto negativo que percebi está relacionado à inteligência artificial dos companheiros de esquadrão. Em alguns momentos, os aliados ficam atirando continuamente contra paredes ou diretamente nos locais de cobertura onde os inimigos estão escondidos, como se não conseguissem interpretar corretamente a posição do adversário.
Também aconteceram algumas situações em que companheiros ficavam correndo presos em paredes ou em áreas com muitos escombros. Apesar disso, são problemas pontuais e que não chegaram a atrapalhar minha experiência ou comprometer a jogabilidade.
Outro pequeno problema aconteceu com algumas caixas espalhadas pelos cenários. Em determinadas situações, mesmo depois de abertas, a marcação correspondente não aparecia corretamente no mapa. São detalhes pequenos, mas que vale mencionar em uma análise técnica. Fora essas situações, o jogo se mostrou extremamente sólido durante minha experiência.

Uma campanha no tamanho certo
Outro ponto que gostei bastante foi a duração da campanha. Minha experiência ficou na faixa de 15 a 20 horas, considerando também a exploração e os conteúdos adicionais encontrados durante a jornada. Para mim, é uma duração que funciona muito bem para a proposta de E-Day.
O jogo consegue desenvolver sua história, apresentar seus personagens, entregar diferentes situações de combate e ainda oferecer conteúdos opcionais sem parecer que está simplesmente aumentando artificialmente sua duração.
As missões secundárias e os colecionáveis também ajudam a dar um pouco mais de profundidade à experiência para quem quiser explorar Sera além do caminho principal. Não senti que a campanha estivesse curta, mas também não tive aquela sensação de que o jogo estava se prolongando desnecessariamente.
Uma experiência que respeita as raízes
Depois de terminar Gears of War: E-Day, talvez a principal conclusão que tenha ficado para mim seja justamente essa: a The Coalition entendeu que não precisava transformar Gears em outra coisa. O jogo mantém a essência da franquia, mas apresenta uma jogabilidade mais refinada, gráficos impressionantes, uma ambientação extremamente bem construída e uma campanha que consegue explorar um dos acontecimentos mais importantes da história de Sera. A história pode não apresentar tantas reviravoltas quanto alguns jogadores esperam, mas a relação entre Marcus e Dom funciona como o coração da campanha.
Enquanto isso, a evolução visual e sonora da guerra é responsável por alguns dos momentos mais impressionantes da experiência. Os poucos problemas técnicos que encontrei, principalmente relacionados à inteligência artificial dos aliados e a algumas marcações de colecionáveis, são pequenos diante do conjunto.
Não cheguei a testar o modo online durante o período de análise e, por isso, não considerei os modos multiplayer na avaliação deste review. A nota é baseada exclusivamente na experiência que tive com a campanha e seus conteúdos relacionados.

Devo comprar?
Gears of War: E-Day é, acima de tudo, uma celebração das raízes da franquia.
A The Coalition conseguiu pegar uma história que os fãs já conheciam — o início da invasão Locust — e transformá-la em uma experiência que funciona tanto como uma nova aventura quanto como uma volta às origens de uma das séries mais importantes do Xbox.
A jogabilidade é, para mim, o ponto mais forte. Tudo está mais fluido, responsivo e refinado, sem perder a identidade que tornou Gears of War tão conhecido. Visualmente, estamos diante de um dos jogos mais impressionantes desta geração, enquanto a ambientação e o trabalho sonoro conseguem transmitir muito bem a sensação de acompanhar Sera sendo destruída conforme a guerra avança.
A história segue uma estrutura relativamente previsível por ser uma história de ogirem, mas Marcus e Dom conseguem carregar a narrativa com uma parceria que ganha ainda mais significado para quem conhece o futuro desses personagens.
Com uma campanha de aproximadamente 15 a 20 horas, conteúdos opcionais espalhados pelo mundo e uma experiência técnica bastante sólida, Gears of War: E-Day entrega exatamente aquilo que um fã de longa data esperava de um retorno dessa franquia, ao mesmo tempo que apresenta o mundo de Marcus Fenix para quem ainda não conhece dar esse pontapé inicial e ser cativado para jogar os outros jogos da série. Dito tudo isso, minha avaliação para a campanha de Gears of War E-day é um 9/10. Um dos melhores jogos de 2026, exclusivo dos consoles Xbox Series e PC, recomendo que joguem e tenham essa excelente experiência que marca como tudo começou em uma das principais marcas e jogos da Microsoft Studios.
Gears of War: E-Day chega em 6 de outubro para Xbox Series X|S e PC, com lançamento também pelo Game Pass. Quem adquirir a Ultimate Edition terá cinco dias de acesso antecipado, podendo jogar tanto a campanha completa quanto o modo multiplayer antes do lançamento oficial.
Esta análise de Gears of War: E-Day foi possível graças à Xbox Brasil, que nos forneceu uma chave de acesso antecipado para que pudéssemos avaliar o jogo antes de seu lançamento. Para este review, jogamos a versão de Xbox Series X.
