Depois de anos explorando diferentes formatos de combate, Final Fantasy volta a apostar em uma fórmula mais tradicional em Resonance. Desenvolvido pela Lancarse e publicado pela Square Enix, o RPG transforma a primeira temporada de Final Fantasy Brave Exvius, jogo mobile encerrado, em uma aventura para consoles e PC.
A proposta preserva personagens e acontecimentos conhecidos, mas reconstrói a experiência com gráficos HD-2D, novas cenas e um sistema de batalha pensado para uma campanha tradicional.
Temos aqui uma combinação interessante de nostalgia e modernização. Resonance não é apenas uma tentativa de recuperar o estilo dos RPGs clássicos, mas também uma forma de preservar uma história que, sem essa adaptação, seria perdida para sempre.
Uma aventura clássica em um mundo renovado
A história acompanha Rain, um cavaleiro que parte em uma jornada ao lado de Lasswell, Fina e outros companheiros para enfrentar ameaças que colocam o mundo em perigo. Cristais, impérios, criaturas fantásticas e disputas por poder formam a base de uma aventura que recupera elementos tradicionais da franquia.

A estrutura narrativa é familiar: o grupo visita novas regiões, conhece personagens, resolve conflitos locais e descobre como cada acontecimento se conecta à ameaça central. Essa organização dá ao jogo um ritmo episódico, com arcos que apresentam seus próprios problemas e deixam ganchos para as próximas etapas.
É uma fórmula que funciona bem para um RPG longo, especialmente porque cada região oferece oportunidades para explorar o mundo e desenvolver o elenco. A adaptação também recria cenas e momentos da história original, em vez de simplesmente transportar o conteúdo mobile para outras plataformas.
Por outro lado, a narrativa ainda carrega sinais de sua origem. Algumas situações seguem uma estrutura previsível e a divisão da campanha em arcos regionais pode transmitir a sensação de que o jogador está avançando por capítulos relativamente independentes.
Ainda assim, a possibilidade de jogar essa história sem depender de um serviço online é um dos grandes méritos do projeto. Resonance transforma um RPG que poderia ter desaparecido com o encerramento dos seus servidores em uma experiência preservada para a eternidade.
O visual HD-2D é um dos grandes destaques
Se a narrativa estabelece uma ligação com o passado, a apresentação visual mostra como a Square Enix pretende atualizar essa fórmula.
Resonance utiliza o estilo HD-2D (popularizado em Octopath Traveler e Dragon Quest), que combina personagens em pixel art com cenários tridimensionais, iluminação volumétrica, efeitos de profundidade e movimentos de câmera. O resultado é um mundo que parece saído de um RPG da era 16-bit, mas com recursos visuais modernos.

Cidades, castelos, florestas e masmorras possuem uma identidade própria, enquanto os efeitos de luz ajudam a destacar os ambientes sem apagar o charme dos sprites. As cenas cinematográficas também recebem tratamento especial, com modelos tridimensionais estilizados que lembram a computação gráfica do primeiro PlayStation.
A apresentação não serve apenas como uma homenagem estética. Os cenários possuem profundidade, caminhos alternativos e elementos que incentivam a exploração. A combinação entre a perspectiva clássica e os recursos modernos dá ao mundo uma escala que os RPGs antigos dificilmente conseguiriam reproduzir.
Esse jogo é um dos exemplos mais impressionantes do icônico estilo HD-2D da Square Enix, introduzindo a franquia com o pé direito nessa “nova onda”.
Combate por turnos com uma camada estratégica moderna
O sistema de batalha é outro acerto importante. Resonance recupera o combate por turnos tradicional, permitindo que o jogador escolha ataques, magias e habilidades de cada integrante do grupo. A ordem das ações depende dos atributos dos personagens e dos inimigos, exigindo planejamento em vez de reflexos rápidos.
A principal novidade é a barra de stagger, que incentiva o jogador a explorar as fraquezas elementais dos adversários. Ao acertar ataques apropriados, é possível desequilibrar os inimigos e interromper suas ações, criando oportunidades para causar mais dano antes que eles consigam reagir.

Essa mecânica acrescenta uma camada tática interessante. Não basta escolher a habilidade que causa mais dano imediatamente: é necessário avaliar a resistência do alvo, administrar recursos e decidir quando vale a pena concentrar os ataques para quebrar sua defesa.
O sistema mantém a acessibilidade dos RPGs tradicionais, mas introduz decisões suficientes para evitar que as batalhas sejam apenas uma sequência de comandos previsíveis. Chefes e inimigos mais resistentes exigem maior atenção à composição do grupo e à combinação de habilidades.
O problema é que a mecânica de stagger também pode tornar alguns confrontos repetitivos. Quando a melhor estratégia consiste em explorar fraquezas até preencher a barra e, em seguida, descarregar os ataques mais poderosos, certas batalhas passam a seguir um padrão muito semelhante.
Além disso, os encontros aleatórios durante a exploração podem interromper o ritmo, especialmente quando o grupo já está em um nível elevado e os inimigos deixam de representar uma ameaça relevante. É um aspecto em que Resonance poderia oferecer mais opções para preservar a fluidez da aventura.
As Visions dão identidade ao sistema de progressão
A mecânica de Visions é uma das ideias mais interessantes do jogo. Ela permite recrutar representações de personagens de outros capítulos de Final Fantasy, incluindo nomes conhecidos como Cloud, Terra, Zidane e Tidus.
Essas figuras não substituem os protagonistas da história. Em vez disso, são equipadas pelos integrantes do grupo e concedem habilidades, poderes e características que ampliam suas possibilidades de combate.

Na prática, as Visions funcionam como uma combinação de equipamentos especiais e sistemas de classes. Cada uma possui características próprias e escolher qual delas será atribuída a determinado personagem pode mudar a maneira como ele atua em batalha.
A variedade permite montar composições diferentes e preencher lacunas no repertório do grupo. Um personagem que não possui ataques de determinado elemento, por exemplo, pode receber uma Vision que amplia suas opções ofensivas. Isso incentiva a experimentação e torna a progressão mais interessante.
Há também um componente nostálgico evidente. Ver personagens de diferentes gerações da franquia reaparecerem em cenas especiais e ataques cinematográficos é um atrativo para veteranos, mas a mecânica não depende apenas do reconhecimento de rostos conhecidos para funcionar.
Ao contrário do sistema de invocações aleatórias da versão mobile, o recrutamento das Visions faz parte da exploração e da progressão da aventura. Essa mudança ajuda a integrar a ideia a um RPG tradicional, sem reproduzir a dependência de sorte e monetização que caracterizava o modelo gacha.
Um mundo amplo, com segredos e atividades opcionais
A exploração complementa o combate e ajuda a dar escala à aventura. O jogador percorre cidades, atravessa masmorras, visita diferentes regiões e encontra tesouros escondidos pelo caminho.
O mapa também oferece missões secundárias e desafios opcionais que ampliam a história do mundo e desenvolvem personagens que recebem menos atenção na campanha principal. Algumas atividades concedem equipamentos e recursos úteis, enquanto outras incentivam a busca por inimigos específicos ou áreas que poderiam passar despercebidas.

Os meios de transporte evoluem conforme a jornada avança, incluindo chocobos e uma aeronave que permite explorar o mapa-múndi com mais liberdade. Essa progressão recupera um elemento clássico da série: a sensação de que o mundo se abre gradualmente à medida que o grupo ganha novas ferramentas para viajar.
O conteúdo adicional é generoso, mas a quantidade de encontros durante a exploração pode cansar. Quando os inimigos comuns deixam de oferecer um desafio significativo, as batalhas frequentes passam a funcionar mais como interrupções do que como oportunidades de testar estratégias.
É um defeito relativamente pequeno diante da variedade de atividades disponíveis, mas que se torna mais perceptível em uma campanha longa.
Um jogo mobile ganha uma segunda vida
Talvez o aspecto mais importante de Final Fantasy Resonance esteja na maneira como ele lida com seu passado.
Brave Exvius foi construído para funcionar como um jogo mobile de longa duração, com conteúdo distribuído ao longo do tempo e sistemas ligados ao modelo de serviço. A adaptação para consoles e PC elimina essa dependência e reorganiza a experiência como uma aventura que pode ser adquirida e jogada sem precisar acompanhar atualizações periódicas.

Isso tem valor para além da nostalgia. Jogos com histórias e personagens próprios não deveriam desaparecer completamente quando seus servidores são desligados. Ao transformar parte de Brave Exvius em um RPG tradicional, a Square Enix preserva uma obra que, de outra forma, ficaria inacessível para boa parte do público.
Final Fantasy Resonance é uma das experiências mais interessantes para quem sente falta dos RPGs tradicionais da franquia. O combate por turnos oferece profundidade sem abandonar a acessibilidade, o sistema de Visions acrescenta variedade à progressão e o visual HD-2D transforma o mundo em um espetáculo que combina nostalgia e modernidade.
O jogo não reinventa o gênero e sua origem mobile ainda aparece em partes da estrutura narrativa. Entretanto, esses problemas não anulam o cuidado com a apresentação nem a qualidade do sistema de combate. Para fãs de batalhas por turnos e para quem não dispensa um bom spin-off de Final Fantasy, é uma recomendação forte.
