Se você cresceu acreditando que toda princesa precisava de um príncipe, um beijo e um destino pré-definido, então talvez seja hora de rever esse roteiro.
“À Espera de um Feitiço“, romance de estreia de Amy Coombe que chega ao Brasil pela Intrínseca em maio, parte exatamente dessa provocação para construir uma fantasia que olha para o passado dos contos de fadas e decide bagunçar tudo com prazer. O resultado é uma cozy fantasy que troca o “felizes para sempre” automático por algo bem mais interessante: escolha, identidade e liberdade.

A história acompanha Tanadelle de Widdenmar, ou só Tandy para os íntimos, uma princesa que está absolutamente cansada de ser uma princesa. Nada de bailes, política ou etiqueta real, o sonho dela envolve livros, conversas de verdade e uma vida menos roteirizada. E é aí que o destino, ou o roteiro subvertido, entra em cena com uma maldição que aprisiona Tandy em uma livraria antiga até que ela descubra o que realmente deseja.
Sim, você leu certo. Em vez de uma torre, temos uma livraria. Em vez de desespero, temos pilhas de livros. E, no lugar de um salvador previsível, surge um pirata que talvez esteja mais interessado no estoque e no coração da protagonista, do que em cumprir qualquer papel clássico.

Mas o livro não fica apenas nessa estética charmosa dos cozy fantasy, com uma narrativa leve e interessante, baixa tensão e alto teor emocional, priorizando o conforto e o bem-estar do leitor. Amy Coombe usa essa estrutura aparentemente confortável para cutucar questões bem atuais. A obra traz personagens queer para o centro da narrativa, sem transformá-los em símbolos ou tragédias ambulantes. Aqui, eles simplesmente vivem com desejos, rotinas e complexidades que fogem do clichê da dor constante.
Outro ponto que eleva a história é a discussão sobre relações familiares tóxicas. Enquanto Tandy tenta entender seus próprios desejos, seus pais seguem insistindo em soluções tradicionais como, por exemplo, enviar pretendentes para “resolvê-la” com um beijo de amor verdadeiro. A pergunta que fica é quase óbvia, mas ainda necessária: e se o final feliz não for aquele que esperam dela?

Dentro do subgênero cozy fantasy, que vem ganhado cada vez mais espaço ao oferecer narrativas mais acolhedoras e introspectivas, “À Espera de um Feitiço” encontra um equilíbrio interessante entre conforto e questionamento. É aquele tipo de leitura que abraça, mas também provoca.
Amy Coombe, que cresceu na Califórnia e hoje vive em Londres, estreia já mostrando que entende bem o poder das histórias que consumimos desde cedo. Afinal, contos de fadas moldam imaginários e reescrevê-los pode ser tão mágico quanto qualquer feitiço.

No fim das contas, talvez a grande magia aqui não esteja em quebrar uma maldição, mas em finalmente poder escolher quem você quer ser. E, convenhamos, isso é muito mais interessante do que qualquer beijo salvador.
