Tenebris Somnia é um jogo de terror e investigação que chama a atenção por combinar exploração em pixel art, elementos de survival horror e cenas cinematográficas com atores reais, quase como uma versão indie de Alan Wake 2. Desenvolvido por Andres Borghi e Saibot Studios, o título aposta em uma identidade visual bastante particular para construir uma experiência que mistura mistério, pesadelos, relacionamentos conturbados e acontecimentos perturbadores. O resultado é uma aventura que demonstra bastante personalidade desde os primeiros minutos, conquistando pela atmosfera, pela narrativa envolvente e pela maneira criativa como integra suas diferentes formas de apresentação.
A busca pelo ex

A narrativa de Tenebris Somnia acompanha Julia, uma mulher que começa a ter pesadelos perturbadores envolvendo seu ex-namorado, Ivan, um cineasta independente apaixonado por filmes. Em seus sonhos, ela o vê sendo atacado e despedaçado por criaturas monstruosas, imagens que despertam sua preocupação e a levam a retornar ao apartamento onde os dois moravam juntos. O que inicialmente parece uma tentativa de descobrir o que está acontecendo com alguém importante de seu passado rapidamente se transforma em uma jornada muito mais perigosa e assustadora. Ao chegar ao local, Julia acaba envolvida em acontecimentos inexplicáveis, dando início a uma investigação que mistura realidade, memórias e horrores que desafiam a compreensão.
Conforme avançamos pela história, descobrimos que o edifício está profundamente ligado às lembranças de Ivan e aos acontecimentos que marcaram sua vida. A exploração dos diferentes ambientes revela fragmentos desse passado, enquanto a presença de um culto misterioso levanta questões sobre os rituais e as forças responsáveis por toda aquela situação. A narrativa constrói suas revelações gradualmente, fazendo com que cada nova descoberta desperte outras dúvidas. Essa estrutura funciona muito bem porque mantém o jogador interessado em compreender o que realmente aconteceu, transformando a investigação em uma parte fundamental da experiência, e não apenas em uma justificativa para explorar cenários assustadores.
Outro aspecto interessante é a maneira como o jogo trabalha o relacionamento entre Julia e Ivan. Em vez de tratar o passado dos personagens como um simples detalhe, a história utiliza suas experiências, suas diferenças e suas ambições criativas para construir uma relação complexa. A paixão de Ivan pelo cinema, por exemplo, não é apenas uma característica superficial, mas um elemento que se conecta diretamente aos acontecimentos da trama. Essa abordagem acrescenta uma dimensão humana ao terror, permitindo que os momentos mais perturbadores sejam acompanhados por conflitos emocionais e questionamentos sobre os vínculos que mantemos com outras pessoas. É justamente essa combinação de drama pessoal e acontecimentos sobrenaturais que torna a narrativa tão envolvente.
A mitologia criada para o universo de Tenebris Somnia também merece destaque. O culto, seus rituais e os mistérios que cercam os acontecimentos apresentam elementos perturbadores sem depender de explicações excessivas. O jogo sabe dosar as informações e preservar uma sensação de estranheza que estimula a imaginação do jogador. Além disso, a presença de múltiplos finais incentiva novas partidas e permite descobrir diferentes desdobramentos para a jornada de Julia. Essa estrutura dá mais peso às decisões e às descobertas realizadas ao longo da campanha, reforçando o envolvimento com a história. No conjunto, a narrativa se destaca pela maneira como conecta relacionamentos, cinema, memórias e horror em uma trama que permanece interessante até seus momentos finais.
Direção de arte aterrorizante… no bom sentido

A direção artística é, sem dúvida, um dos maiores destaques de Tenebris Somnia. Durante a exploração, o jogo utiliza gráficos em pixel art inspirados na estética dos títulos clássicos de terror, com personagens, cenários e objetos construídos a partir de uma representação visual retrô. Entretanto, essa escolha não significa que a apresentação seja limitada ou desinteressante. Pelo contrário, o uso inteligente das cores, a composição dos ambientes e os detalhes presentes nos cenários ajudam a transmitir a personalidade dos locais e a criar uma atmosfera constantemente inquietante. Mesmo com uma resolução visual simplificada, o jogo consegue comunicar muito sobre o ambiente e seus perigos.
O grande diferencial está na maneira como essa estética se combina com sequências filmadas com atores reais. Em determinados momentos, uma situação apresentada em pixel art pode se transformar diretamente em uma cena cinematográfica, trazendo uma representação realista do acontecimento que acabamos de presenciar. Essa transição acontece de maneira natural e surpreendente, ampliando o impacto de determinadas situações sem quebrar a identidade da experiência. É uma solução criativa que explora as diferenças entre as duas linguagens visuais, fazendo com que o jogador nunca saiba exatamente quando uma cena aparentemente comum poderá se transformar em algo muito mais perturbador.
As sequências com atores reais são especialmente impressionantes pela qualidade da direção e dos efeitos especiais. Em vez de depender exclusivamente de filtros visuais para tentar reproduzir a aparência de produções antigas, o jogo aposta em imagens nítidas, enquadramentos bem construídos e efeitos práticos e digitais que ajudam a dar vida às criaturas. A combinação de maquiagem, efeitos físicos e recursos digitais produz resultados convincentes dentro da proposta do jogo. Os monstros apresentam aparências grotescas, formas distorcidas e detalhes que tornam suas aparições particularmente desconfortáveis. A diferença entre observar essas criaturas em pixel art e vê-las representadas por efeitos cinematográficos reais contribui para que cada encontro tenha uma identidade própria.
Atmosfera pesada

A construção do terror em Tenebris Somnia funciona justamente porque o jogo não depende apenas de sustos repentinos. A atmosfera é alimentada pelo mistério que envolve Ivan, pela presença do culto e pela sensação de que os ambientes explorados escondem acontecimentos que ainda não compreendemos completamente. O edifício se transforma em um espaço de incerteza, no qual as memórias dos personagens se misturam a situações cada vez mais estranhas. Essa progressão mantém o jogador atento aos detalhes e faz com que a exploração seja acompanhada por uma constante expectativa de que algo perturbador possa acontecer.
O design das criaturas é outro ponto forte. Os inimigos apresentam formas grotescas, bocas distendidas, tentáculos ensanguentados e características que parecem ter saído de um pesadelo particularmente cruel. Há uma criatividade evidente na maneira como esses monstros são concebidos, evitando que todos pareçam variações de uma mesma ideia. Algumas aparições conseguem causar desconforto apenas pela aparência, enquanto outras se tornam ainda mais assustadoras quando são apresentadas nas sequências com atores reais. Essa alternância entre o horror estilizado da pixel art e a representação física das criaturas cria contrastes interessantes e amplia a variedade visual dos momentos mais intensos.
O trabalho sonoro também contribui significativamente para a ambientação. Os efeitos apresentam uma textura que combina com a estética retrô, enquanto os ruídos produzidos pelos inimigos ajudam a identificá-los e aumentam a tensão durante a exploração. Os passos também variam de acordo com a superfície, fazendo com que caminhar sobre vidros quebrados ou atravessar áreas cobertas de sangue produza sensações auditivas distintas. São detalhes que demonstram cuidado com a construção dos ambientes e tornam a experiência mais envolvente. Mesmo nas seções em pixel art, sem a presença constante de cenas filmadas, o jogo consegue estabelecer uma atmosfera ameaçadora por meio do som e da composição visual.
A variedade dos encontros ajuda a manter o terror interessante ao longo da campanha. Além das situações em que precisamos enfrentar criaturas, existem momentos de perseguição que aproveitam muito bem a tensão e o ritmo cinematográfico da aventura. Nessas ocasiões, a sensação de perigo surge da necessidade de reagir ao que está acontecendo, e não simplesmente de derrotar um inimigo. Os confrontos contra chefes também apresentam conceitos visuais e mecânicos próprios, criando situações que exigem atenção ao ambiente e ao comportamento dos adversários. Com isso, Tenebris Somnia consegue alternar investigação, suspense, horror corporal e momentos de ação, oferecendo uma experiência que encontra diferentes maneiras de manter o jogador apreensivo.
Simples e funcional

A jogabilidade de Tenebris Somnia combina exploração em duas dimensões, investigação de ambientes, resolução de enigmas e elementos de survival horror. Sua estrutura é relativamente simples de compreender: percorremos os cenários, observamos os objetos disponíveis, recolhemos itens e procuramos maneiras de utilizá-los para abrir caminhos ou avançar na história. Objetos aparentemente comuns, como tesouras e copos, podem se tornar importantes dependendo da situação, enquanto a combinação de itens permite encontrar soluções para obstáculos mais específicos. As vezes nem tudo fica realmente claro de como e onde deve ser usado, o que pode causar muita tentativa e erro ao utilizar os objetos.
Os puzzles são um dos pontos mais controversos. Embora algumas soluções apresentem pistas suficientes para que o jogador consiga compreender o que precisa fazer, outras vai pedir muita interpretação do que deve ser feito e isso pode tomar muito tempo e até frustrar um pouco. Isso acontece porque em Tenebris Somnia ao invés de depender exclusivamente da combinação aleatória de objetos, muitos puzzles vão exigir mais observação e raciocínio, incentivando uma análise mais cuidadosa dos cenários.
A exploração de Tenebris Somnia também é importante para a maneira como a história se desenvolve. Conforme descemos pelos andares do edifício, encontramos novos ambientes e descobrimos informações relacionadas às memórias de Ivan. A progressão mantém um bom senso de descoberta, pois cada área pode revelar pistas importantes ou apresentar situações inesperadas. Em determinados momentos, precisamos observar atentamente o ambiente para entender como utilizar um item ou combinar objetos de maneira adequada. Embora algumas soluções possam exigir um pouco mais de tentativa e observação, essa dinâmica combina com a proposta investigativa e recompensa quem presta atenção aos detalhes. O jogo ainda introduz confrontos que aproveitam características específicas dos cenários, como uma batalha em um ambiente completamente escuro, na qual precisamos apagar velas para atingir o inimigo. São ideias que ajudam a variar a experiência sem abandonar a importância da observação.
Considerações finais

Tenebris Somnia é um jogo de terror que se destaca pela combinação criativa de pixel art e cenas com atores reais, entregando uma atmosfera perturbadora e uma história envolvente. Os enigmas desafiam a observação, enquanto os monstros e os efeitos especiais impressionam. Apesar de alguns puzzles confusos e combates exigentes, é uma experiência marcante para os fãs do gênero.
A review de Tenebris Somnia foi realizada com uma cópia cedida pela
New Blood Interactive.
Distribuidora: Andrés Borghi, Saibot Studios
Desenvolvedor: Blood Interactive
Gênero: survival horror, puzzle
Disponível para: PlayStation 5, Xbox Series, Nintendo Switch 1 e 2, e PC
Data de lançamento inicial: 16 de outubro de 2026