*Este review foi realizado com uma cópia do jogo disponibilizada pela Capcom
Os últimos nove anos foram marcados por uma grande revitalização da franquia Resident Evil, que durante sua segunda fase (representada do quarto ao sexto jogo) passou por muitos altos e baixos. A partir de RE7, a Capcom trouxe uma nova visão que, surpreendentemente, se provou muito melhor do que qualquer um de nós poderia imaginar.
Resident Evil Requiem é o nono título da série principal e a “conclusão” dessa terceira fase, que além da nova trilogia, também é composta por diversos remakes. Pode-se dizer que esse é o jogo mais ambicioso da Capcom em um bom tempo – e não é à toa, ele eleva o patamar do “terror biológico” a um novo nível. Estamos testemunhando um novo renascimento dessa brilhante franquia.
Requiem para os mortos
Requiem se passa alguns anos após os eventos vistos em Resident Evil Village, mais precisamente no ano de 2026. Somos introduzidos a uma nova protagonista: Grace, uma agente do FBI que é obrigada a confrontar seu passado e investigar um mistério do qual, mesmo sem saber, ela tem uma participação crucial.

Paralelamente a isso, temos o retorno do nosso querido Leon – agora bem mais velho. O galã também está investigando o mesmo caso de Grace, mas com uma motivação diferente: ele e todos os sobreviventes de Raccoon City estão infectados com o Virus-T, o mesmo que transformou toda a cidade em zumbis.
Enquanto Grace está tentando descobrir o que está causando a morte desses sobreviventes, Leon está buscando uma cura para sua condição. No centro de tudo isso, temos o cientista Victor Gideon, que vem conduzindo as pesquisas bizarras da Umbrella por baixo dos panos.
O enredo se desenrola em uma narrativa alternada, em que hora controlamos Grace e hora assumimos Leon. De início, o jogo aparenta ter um certo favoritismo com somente um desses personagens, mas conforme avançamos, tudo fica perfeitamente equilibrado. Ambos brilham igualmente em seu protagonismo – e não menos importante, adicionam novas dinâmicas ao jogo.

Grace seria o que chamamos de “Resident Evil moderno”: um survival horror em sua forma mais pura, com grande foco no terror. Você tem a opção de alternar a visão entre primeira e terceira pessoa, mas mesmo jogando em terceira pessoa, pode ter certeza de que aquele famoso “frio na barriga” está garantido.
Leon já seria o que a segunda fase da franquia tem de melhor: um ótimo jogo de ação. Os elementos de terror ainda estão presentes, mas com uma proposta idêntica à de Resident Evil 4: seu papel não é sobreviver, mas sim massacrar todas as criaturas diabólicas que encontrar.
Dois pelo preço de um
O modo como a dinâmica do jogo está sempre mudando é bem positivo, pois dificilmente você se sentirá entediado ou ficará enjoado do gameplay. Nos trechos com Grace, estamos sempre nos escondendo e poupando recursos (que são escassos); já com Leon, partimos para cima de qualquer ameaça sem medo, explorando ao máximo seu arsenal.
O gameplay de Grace também segue um sistema clássico de “nêmesis”, onde sempre teremos um monstro indestrutível nos perseguindo por todo lado. Existem diferentes criaturas especiais nesse jogo e o mais legal é que algumas delas podem ser destruídas – desde que você tenha os itens necessários (e a coragem).

Já Leon segue o mesmo formato visto em Resident Evil 4 Remake, com sua famosa maleta, upgrades em armas e, dessa vez, uma machadinha que eleva consideravelmente suas habilidades no corpo a corpo. O agente ainda é capaz de manusear as armas dos inimigos, incluindo a infame serra elétrica (Dr. Salvador que se cuide).
A Capcom conseguiu renovar o combate com mecânicas que o deixaram muito mais crocante – e o melhor: os inimigos também receberam upgrades. Requiem “volta às origens” ao trazer os zumbis de volta, mas eles não são mais os mesmos. Agora, os mortos-vivos falam, usam armas e, em alguns casos, conseguem até mesmo flanquear.
Cada parte do jogo traz ameaças que torna a luta pela sobrevivência realmente instigante, seja na pele de Leon ou na de Grace. O jogo até mesmo incentiva o combate ao estabelecer um sistema de recompensas no gameplay de Leon – quanto mais inimigos você vai matar, mais pontos ganha para gastar com upgrades e armas. É revigorante jogar um Resident Evil sem se preocupar com munição.

Outro ponto a ser elogiado é a discrepância entre os dois protagonistas. Enquanto Leon é o combatente destemido que enfrenta qualquer criatura sem suar, Grace claramente sente medo de tudo ao seu redor. Ela está constantemente ofegante e, ao mirar, o tremor das suas mãos reforça que ela não está nem um pouco acostumada a todo aquele inferno.
O jogo traz até algumas surpresas em que, por vezes, se preocupar somente com a sua vida não será o suficiente para sobreviver nesse caos.
O futuro de Resident Evil
Requiem possui o mesmo motor gráfico dos remakes e dos seus antecessores, com leves polimentos. O jogo é muito bonito visualmente e trabalha com luzes de forma sublime, algo que certamente faz toda a diferença em sua ambientação. Existe um bom trecho do jogo que passamos a céu aberto, durante o dia, e ele ainda consegue manter o ar de horror nessas circunstâncias.
A experiência é quase perfeita, mas tem alguns pequenos deslizes que, apesar de não serem um grande problema, são perceptíveis. O primeiro deles está nos chefes: eles até se garantem em presença e intimidação, mas não trazem bons desafios. Nos trechos com Leon, muitas dessas batalhas são apenas fan service e, na prática, não possuem a grandiosidade que poderiam ter (incluindo o confronto final).
Além disso, muitos pontos da história ficam em aberto – e é claro que teremos uma continuação, mas alguns detalhes precisavam de uma explicação neste jogo. Tudo leva a crer que teremos alguns DLCs que explicam ao menos algumas dessas pontas soltas, mas no geral, esse é o tipo de coisa que deve ser resolvida na campanha principal.

O jogo mantém a média de duração dos seus antecessores, variando de 12 a 15 horas. Esse tempo é muito relativo, dependendo de como cada um joga. Quem explora bastante e não se importa de fazer backtracking para coletar itens vai estender um pouco a jogatina, mas nada que fuja tanto do padrão.
Dito isso, podemos afirmar com todas as letras que Resident Evil Requiem é um grande jogo, digno de todo o hype que recebeu desde seu anúncio. É impossível um fã da franquia não se sentir contemplado com este jogo e com todos os “e se” que ele deixa no final.
É impossível adivinhar o que vem por aí, mas dado o histórico da Capcom, podemos esperar algo à altura de tudo que foi a incrível “terceira fase” de Resident Evil.