O cenário dos quadrinhos nacionais ganha um reforço de peso com a chegada de Lapso, a nova graphic novel que marca a colaboração entre os talentosos Ren Nolasco e Márcio Moreira. Publicada pela Suma de Letras, a obra surge em um momento de efervescência para a produção brasileira, consolidando a parceria de uma dupla que já demonstrou domínio narrativo e visual em projetos anteriores.

O lançamento não é apenas mais um título nas prateleiras, mas um exemplar do amadurecimento das publicações de gênero no Brasil, misturando elementos de fantasia urbana com uma ficção científica psicodélica que dialoga diretamente com as angústias e o humor da nossa geração.
Uma vidente em busca de engajamento e a realidade dos boletos
A trama nos apresenta Verônica, uma bruxa desempregada que, como muitos jovens de vinte e poucos anos, tenta encontrar seu lugar em um mercado de trabalho cada vez mais digital e saturado. Na tentativa de alavancar sua carreira como vidente, ela decide investir no que acredita ser a jogada de marketing definitiva, em comprar uma estrela para anunciar seus serviços nos céus da internet.

O plano, no entanto, é visto com ceticismo por sua amiga Cocota, que traz a dose necessária de pé no chão ao lembrar que curtidas e engajamento nem sempre se traduzem em dinheiro para pagar o aluguel atrasado ou evitar o temido retorno para a casa da mãe.

Essa premissa de fantasia brasileira ganha contornos de urgência quando a compra da estrela (feita em doze parcelas) desencadeia uma série de eventos anômalos. O cotidiano de Verônica é interrompido por lapsos no espaço-tempo, mergulhando a protagonista em dimensões paralelas onde a lógica da realidade deixa de existir. Se você curte obras que misturam o misticismo com o cotidiano urbano, como as de Carol Chiovatto, a leitura de Lapso se torna obrigatória por capturar essa essência de forma autêntica.
Caos intergaláctico e a ameaça de quatro patas
O que começa como um problema financeiro e existencial rapidamente escala para uma jornada através das frestas do universo. Verônica passa a contar com companhias inusitadas: um alienígena mal disfarçado e um gato preto envolto em mistério. O felino, longe de ser apenas um animal doméstico, revela-se uma ameaça intergaláctica aterradora que precisa ser contida. A dinâmica entre o perigo cósmico e a necessidade de preservar os móveis da casa traz um tom de humor ácido que equilibra perfeitamente a tensão da narrativa, colocando o leitor no banco de passageiros de uma viagem alucinante.

A força de Lapso reside na simbiose entre o roteiro e a arte. Ren Nolasco e Márcio Moreira constroem uma identidade visual que transita entre o sonho e o pesadelo com naturalidade. As características marcantes da dupla, como o uso vibrante de cores e uma diagramação que acompanha o ritmo frenético da história, transformam a leitura em uma experiência imersiva. Quem acompanha a trajetória de artistas como Paulo Moreira vai identificar aqui aquela energia pulsante da nova escola do quadrinho brasileiro, que não teme arriscar em composições visuais ousadas e diálogos afiados.
O legado da produção nacional e a importância de Lapso
O lançamento dessa graphic novel pela Suma de Letras reforça o compromisso de grandes editoras com o talento nacional. Ren Nolasco e Márcio Moreira não estão apenas contando uma história sobre bruxas e alienígenas, eles estão reafirmando o legado de uma geração de artistas que ocupa espaços antes restritos a produções estrangeiras. A obra é um reflexo da capacidade brasileira de criar universos originais, emocionantes e, acima de tudo, extremamente bem-humorados, sem perder a profundidade crítica sobre o desejo de (auto)descoberta e a busca por autonomia.

Lapso é um título que atende tanto ao leitor ávido por HQs de aventura quanto ao público que busca uma narrativa contemporânea com a qual possa se identificar. A jornada de Verônica, entre o místico e o burocrático, é um espelho de uma juventude que tenta equilibrar sonhos e boletos em um universo que parece, constantemente, prestes a entrar em colapso.

Lapso é uma leitura eletrizante que prova que a melhor ficção científica e fantasia pode estar acontecendo bem aqui, nas parcelas do nosso cartão de crédito e nas fendas da nossa realidade.
